sábado, 17 de abril de 2010

AUTOPSICOGRAFIA

O POETA é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Vida

Todos nós moramos numa casa bem grande e redonda. Esta casa é o nosso planeta Terra. É como uma nave na qual viajamos pelo espaço, iluminados pelo sol, acompanhados pela lua e por muitas estrelas. A Terra vista de longe é azul. O céu também é azul. A Terra vista de pertinho tem muitas cores: a cor da própria terra, o verde das montanhas, florestas e árvores, o colorido das flores e frutas, o arco-íris que tem sete cores e muito mais. Aqui também tem muita água! O mar, os rios, os lagos e lagoas, as cachoeiras e a chuva que cai do céu. Aqui também moram muitos animais! Na terra, na água e no ar. Pássaros que voam e cantam, borboletas e cigarras, abelhas que fazem mel, milhões de espécies. Tudo isto é muito lindo! Inúmeras formas de vida. É muito bom morar aqui. É muito bom ser "ser-humano". Vamos ser "bem humanos". Vamos cuidar da nossa saúde, vamos cuidar da nossa casa e de nossos companheiros de viagem. Vamos celebrar a vida! Cantando, dançando, brincando, aprendendo, trabalhando, crescendo, vivendo felizes! Em paz! Com amor!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Tequinha


Amigos Invisíveis

Esse monte de papéis sobre o bureau, tanta coisa que eu escrevi, foi pra mim?, foi pra ti? pra quem foi afinal?

Buscas, sonhos, afagos. A solidão, fantasias infantis. Planos, expectativas, vontade de brincar. Insólitos encontros, desabafos. Desilusões, decepções, desagradáveis desencontros, confusões.

Estamos entre o céu e a terra, entre o fato e a fantasia. Somos tão leves, frágeis, queremos tudo de bom. Mas às vezes a vida é dura, injusta, muito diferente do que poderia e deveria ser. Então nos sentimos sós, desolados, incompreendidos, singulares nesta multidão, distantes demais do que chamam de real, distantes demais um do outro.

Eu vou até a sacada, debruço no muro e olho pra rua lá fora. Quantas casas e pessoas diferentes, diferentes situações. E o céu lá em cima, etéreo, infinito, completo, único.

As pessoas vão pro céu quando morrem? Será que elas vem do céu quando nascem?

Quando o céu está azul fica tudo mais bonito. Quando o céu está cinzento agrava nossa tristeza, nossa incerteza. Bucólicos momentos.

É perfeito ou imperfeito? É bonito ou feio? É tudo isso junto!

O céu abriga a todos nós nos unindo cosmicamente. E é assim... Navegamos no mesmo barco, iluminados pelo mesmo sol e temos como imprescindível à vida o invisível ar pra respirar.

Mesmo que nem todos saibam não existimos isoladamente. Estamos vinculados compartilhando a vida e o que há de essencial que independe de tempo, lugar ou condição.

O que nos torna amigos é a consciência, afinidades. Existe entre nós uma comunhão de idéias, percepções e aspirações.

É muito bom não ter perdido o fio da meada e sempre ter observado quando a história estava mal contada.

sábado, 3 de abril de 2010

Filipe e Teca


Os sentidos da infância

No meu sonho todos os dias eram claros e azuis, todos os campos eram verdes e macios. Havia uma paz e uma harmonia impossível de descrever. Mistura de delícia com preguiça. Tudo estava bem e às vezes fazíamos piqueniques.

Se ouvia uma porção de sons peculiares ao lugar, sons oriundos das formas de vida do lugar. Mas por trás de tudo, um silêncio profundo. O som do mundo. O mundo original.

Os cheiros eram diversos: grama molhada, palheiro, esterco, zurrilho, jasmim, bergamota, alfazema etc. Eu adorava todos eles. Todos eles eram bons.

O gosto... De leite quente, biscoito, doce de leite, pitanga. O gosto de se saber que tudo que ali se tinha, dali mesmo provinha.

Muita coisa acontecendo sempre, mas nada alterando a essência de tudo. Como se fosse um jogo, com cada peça em seu exato lugar. Tudo tinha o direito de ser e tudo era como tinha que ser, quente e fresco ao mesmo tempo.

Tinha uma bola de fogo que era a origem de tudo. Tinha céu e ar, tinha terra e água. A noite era pontilhada de estrelas que junto com a lua faziam lindos desenhos enfeitando o cenário e comandando a cerimônia.

Tinha muitas plantas, horta, pomar e jardim. E muitos animais, pássaros, cavalos, cachorros, filhotinhos, o gado, as ovelhas, as aves do galinheiro, patinhos nadando no lago.

Tinha muitas pessoas: crianças e velhos, adultos e jovens, tudo funcionando bem, pronto, completo. Uma gloriosa celebração. Uma gostosa brincadeira.

Tudo se passou num momento, mas me pareceu a eternidade. Me fez sentir a alma da vida, me fez conhecer a perfeição e beleza, simplicidade e magnitude, a magia e os mistérios do universo.

E vi que meu sonho não era apenas um sonho, mas, também, as lembranças da infância.