sábado, 6 de março de 2010

Rose

Rose estava exausta. Chegou em casa cansada e toda ensopada do banho de chuva. A aula tinha estado boa, mas o que ela mais queria era tirar os sapatos, as roupas molhadas, tomar um banho quente, se agasalhar e depois comer alguma coisa. Pensou em comer alguma coisa com ele, enquanto fossem conversando sobre como havia transcorrido o dia para cada um. Certamente ela contaria da aula, do aglomeramento na frente do supermercado por causa de um assalto, e da prima que ela tinha encontrado e quase não reconheceu, tamanho era o tempo que não se viam. Mas as luzes estavam todas apagadas, então ela logo se deu conta de que ele ainda não estava em casa. Seguiu seu roteiro: tirou os calçados, as roupas molhadas, tomou seu banho quente, se agasalhou e jantou. Pensou em telefonar, mas primeiro foi até o quarto preparar a cama para logo em seguida se deitar. Foi quando percebeu o bilhete dele em cima do seu travesseiro. O bilhete dizia:

"Rose
Desculpe não esperar para falar com você pessoalmente, mas é que eu não consegui. Por isso decidi me despedir por bilhete. Não sei o que dizer, não tenho uma razão para estar indo embora, mas estou. Não posso mais ficar com você. Por favor entenda. Espero que você seje muito feliz.
Amilcar"

Pois bem... Após a leitura do bilhete, Rose ficou um tempo parada, perplexa, sem saber ao certo se o sentimento que vinha chegando para lhe tomar conta era de tristeza ou de decepção. Rose não conseguia identificar se estava triste, decepcionada, braba ou com vontade de rir. Vagueou pela casa falando com os botões de sua camisola.

Puxa, a gente se gostava, e as coisas entre nós até que estavam indo bem, mas acho que ele se sentia um pouco mal comigo por causa da nossa diferença cultural. Coisa dele, porque eu sempre procurei respeitar nossas diferenças e sempre encontrei motivos para admirá-lo. Mas é a tal coisa, coisa e tal. Eu sempre às voltas com livros, ele com os carros, eu falando de aulas, textos, testes, ele com as peças, motores e essa incapacidade de falar olhando no olho sobre coisas que só se pode falar olhando no olho.

É, ela estava mesmo um pouco triste e decepcionada. E também estava um pouco braba. Mas quando releu o bilhete e deparou com aquele "seje" pela segunda vez, entendeu que ele estava fazendo a coisa certa e que, possivelmente, ela seria mais feliz a partir dali. Ela riu um pouco da atitude dele e da pureza do erro. Depois se deitou, pegou seu livro para ler e, após algumas páginas, adormeceu.

Um comentário:

  1. Oba! Vou vir aqui visitar de vez em quando para ler boas histórias.

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